16 . 08 . 2009

O sujo falando do mal lavado

Por Fernanda Marques

     A pauta desta semana nos meios de comunicação foi a troca de acusações entre Rede Globo e Record. Esta alega que a emissora de Roberto Marinho é acusada de manter a manipulação da informação e o monopólio da mídia. Prometeu mostrar uma matéria especial sobre o assunto, hoje à noite, às 20h, no “Repórter Record”.

     Já o outro canal mostrou denúncias do Ministério Público contra a Igreja Universal, alegando que a instituição usava dinheiro de fiéis de forma ilegal. A briga saiu dos bastidores e foi para a televisão. Cada matéria dos telejornais das duas emissoras atacava uma a outra, diretamente ou indiretamente. Foi uma guerra de vaidades de grandes dimensões.

     Tanto a Globo, quanto a Rede Record querem passar uma imagem de paladinas da justiça e de mídia séria. Essa postura chega a ser patética e, em alguns momentos, lamentável.  É o sujo falando do mal lavado. Será que a Record “esqueceu” dos processos que a jornalista da Folha de S. Paulo, Elvira Lobato, sofreu dos fiéis da Igreja Universal, como uma clara tentativa de censura? A resposta: não.

     Ninguém ganha nada com essa guerra: nem as emissoras e menos ainda, os telespectadores. Porque fazer matérias de seis a 10 minutos, apenas para ataques pessoais, é realmente irrelevante, quando coisas piores acontecem em nosso país e que nem sempre são mostradas pelos meios de comunicação.

TV Record e TV Globo trocam acusações em seus telejornais

08 . 08 . 2009

Operação pandemia

Por Paola Queiroz

31 . 07 . 2009

As relações na líquida sociedade moderna

por Paola Queiroz

Com o desenvolvimento da indústria, veio a produção em grande escala e com ela o consumismo. Com o avanço das tecnologias, as novidades foram surgindo em tempo recorde, reforçando a necessidade de consumir sempre o que há de mais novo, tornando o antigo inutilizável. Ainda com as tecnologias, os meios de comunicação foram se tornando cada vez mais acessíveis à população. Hoje, a internet e o celular são as principais vias de relacionamento entre as pessoas com qualquer poder aquisitivo e em qualquer lugar do mundo. Como numa rede, as características comportamentais do homem atual estão relacionadas, sem que se consiga definir causa e conseqüência.

Assim como os produtos e os meios de comunicação, as relações entre as pessoas, em especial as amorosas, também passam pelo processo da instantaneidade e assumem o caráter descartável do consumismo, aquilo que é usado até a satisfação das necessidades ou até que se perca o interesse. Parte das características dos tempos atuais, bem definido por Zygmunt Bauman como Modernidade Líquida, o amor de hoje sofre dos mesmos sintomas do comportamento humano em vários aspectos da vida. A correria, o tempo fugaz, o apego e o desapego, a necessidade de estar em todos os lugares, de não perder oportunidades, de não poder parar, não poder pensar, o interesse e o desinteresse quase simultâneos.

A facilidade de comunicação pode possibilitar o acesso entre as pessoas, no entanto configura a fragilidade dos laços estabelecidos. Ao mesmo tempo em que faz com que as pessoas se sintam confortáveis e seguras para, através de sites de relacionamentos, falar sobre assuntos, muitas vezes íntimos, que demandariam sucessivos encontros e elevado grau de conhecimento do outro, faz também com que as relações, fragilmente estabelecidas, sejam facilmente quebradas. Neste mundo propenso a mudanças rápidas e imprevisíveis, os homens de nossa líquida sociedade moderna se conectam uns aos outros sem a garantia da permanência.

Os vínculos são frouxamente atados para que possam ser desfeitos, assim que se fizer necessário ou quando o cenário mudar, o que acontece repetidamente nos tempos atuais. Os sentidos e os sentimentos são facilmente descartáveis, mas homens e mulheres desejam a segurança do convívio e a possibilidade de contar com o apoio do outro, num momento de aflição. Então, buscam, a todo custo, “relacionar-se”. Porém, ao menor sinal de estarem “ligados permanentemente” a alguém, buscam preservar a individualidade e não aprofundar a relação, já que esta condição pode trazer encargos e tensões que nem sempre se está disposto ou pronto a enfrentar e, acima de tudo, limita a liberdade de “relacionar-se” novamente.

Como afirma Bauman, no livro Amor Líquido, o que os seres humanos esperam é “(…) desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir…”. O sociólogo refere-se a essa conduta como “relacionamento de bolso”, quando se pode usar e tornar a guardar quando convier. Ou, ainda, de maneira mais severa, compara os relacionamentos com a vitamina C: “em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. (…) É preciso diluir as relações para que se possa consumi-las.” Nestes casos, as relações devem ser sempre revistas para que se tenha certeza de que continuarão funcionando bem.

No contexto atual, os compromissos, em especial os estabelecidos a longo prazo, são encarados como limitadores para que outras possibilidades românticas surjam, talvez mais satisfatórias e completas, como um produto comercializável. Assim prefere-se manter distância, não assumir nem exigir compromisso, deixando “todas as portas sempre abertas”. Parece, portanto, que, mesmo ansiando por relacionar-se, paira o medo do fracasso, o que gera conflito entre o que se fala e o que se faz. Ao mesmo tempo há “o prazer do convívio e o horror da clausura”. Por isso, o homem contemporâneo prefere conectar-se. Ao invés de parceiros, estabelecem-se redes. Desta forma, é fácil conectar e desconectar por escolha, basta apertar um botão. Um relacionamento indesejável não parece ser tão fácil de romper como uma conexão indesejável.

Diferentemente das relações reais, em que as coisas são pesadas, lentas, complexas e sólidas, as relações virtuais são perfeitamente adequadas ao cenário da líquida vida moderna, no qual tudo é leve, se transforma, se recicla e é substituído velozmente, incluindo as possibilidades amorosas. Logo, deficiente na qualidade, procura-se suprir a falta com a quantidade. Pode-se acreditar que a habilidade de amar aumenta com o acúmulo de experiências. Estabelecer-se se torna inviável para o habitante da sociedade atual, que prefere a satisfação instantânea a postergar, semeando, alimentando e cultivando o desejo. Este não chega a crescer efetivamente para, assim, ser realizado. Essa conduta foi comparada, por Bauman, a dos consumidores que, hoje, não compram para satisfazer o desejo, mas por impulso, já que o cultivo do desejo para que este dê lucros leva um tempo insuportavelmente longo.

O desejo e o amor, aparentemente próximos, se distanciam. “Se o desejo pretende consumir, o amor quer possuir”. O desejo cessa ao realizar-se, há em si a aniquilação do objeto. O amor, no entanto, pretende assimilar o sujeito no objeto, possuí-lo. Desta forma, amor e desejo não andam, hoje, necessariamente lado a lado. Em muitos casos, opta-se por “resolver” a compulsão do desejo, a fim de findá-lo, tornando o objeto desejado eminentemente descartável. Em nosso mundo de velocidade e aceleração, não é dado o tempo necessário para que se perceba o sujeito além do objeto, para então amar e se relacionar verdadeiramente.

31 . 07 . 2009

Aqui Jaz a Publicidade

Por Marjoriê Macedo

Ao analisar novamente o pensamento de Oliviero Toscani neste blog, não posso deixar de apoiá-lo.

A felicidade nos faz crê que ela realmente exista (ou existia) como ser humano, já que entra diariamente em nossas casas, mostrando uma realidade completamente diferente da nossa e nos vender a imagem de um mundo perfeito, com pessoas de corpo magro e bronzeado, de crianças saudáveis e belas em cidades lindas com toda infra-estrutura adequada, água potável e tudo funcionando, com estradas seguras e belos carrões, como se isso fosse a vida de todos nós.

Acontece que a força da publicidade é tão grande que quando assistimos uma propaganda de cartão de crédito, com pessoas belas comprando tudo que vêem pela frente, a nossa vontade é de ter logo um desses, para que também possamos ususfruir desses poderes. É preciso ter muito equilíbrio e pés no chão para não nos deixar levar por tudo aquilo que estamos vendo.

Nós, consumidores, pagamos por todo este investimento da publicidade. Gasta-se milhões de dólares em filmes publicitários quase sempre iguais, sob o mesmo padrão e seguindo a mesma linha. O mais importante é vender e não esclarecer, informar ou comunicar. Muito dinheiro é gasto para exibir algo mentiroso e fazer com que nós, consumidores, acreditemos naquilo que vemos. Você realmente acredita que a Xuxa usa o creme hidratante nacional Monange ou que a Malu Mader usa sabonete Lux, ao invés de cremes importados, franceses como Lancôme ou Clinique?

Isso nada mais é do que uma indução para as pessoas comprarem tal produto. Desculpem-me, mas não creio que estas atrizes usem nada disso e o pior é que muita gente compra achando que vai ficar igual a elas. É realmente um crime contra nossa inteligência.

E quem ainda aguenta a publicidade que vende felicidade, carros importados, enquanto a crise financeira está aqui ao nosso lado? Prefiro mudar de canal!

A publicidade seduz os ingênuos. Ela atrai, cria desejos.

Ninguém quer ver propaganda com gente pobre, feia, acidentada. Queremos ver mulheres louras, magras, bem vestidas e saudáveis.

A publicidade vende ilusões e isso torna um mundo de frustrados, que não são capazes de adquirir o carro, a casa, a roupa, o brinquedo que aparece na tv. Isso gera depressão, angústia e raiva. Os ladrões de tênis e roupas, por exemplo, sempre procuram por marcas famosas.

 Hoje em dia a publicidade é totalmente parecida, copiada e sem nenhuma criatividade.

 Ressuscitar a publicidade íntegra?

Este desafio, eu pago para ver!

30 . 07 . 2009

Paradigmas da Recepção – Parte II

Por Dayane Andrade

Sara Goldfarb e o Paradigma das Mediações 

Diagnóstico: viciada em televisão, mais precisamente em um show de auditório, estilo auto-ajuda que premia as pessoas pelas suas realizações sociais e motivação de vida.

Efeitos colaterias: reconfiguração de valores, esvaziamento das relações sociais, perda da razão, atitudes extremas, depressão, vício e loucura.

RequiemForADream6Mediações de Referência: gênero, idade, etnia, estrato social. Mulher, meia idade, viúva, um pouco a cima do peso – para os padrões de beleza –, sem bens, sem carreira, dona-de-casa. Convive com mulheres de meia idade que passam a maior parte do tempo preocupadas com a beleza e os bens materiais.

RequiemForADream2Mediações Institucionais: família, escola, time de futebol, igreja, comunidade de apropriação. Sua única família é seu filho Harry – viciado em heroina que vende a única televisão de casa para comprar droga. Seu marido, Saymour está morto há anos. A única recordação de uma família feliz é quando lembra com nostalgia a época em que seu marido era vivo, seu filho estudava e ela era magra e jovem e cabia em um vestido vermelho que Saymour adorava. Agora o único momento de felicidade é quando senta em sua humilde poltrona e abre caixas de chocolates para assistir ao seu programa favorito de televisão.

“Um primeiro cenário no qual se transcorre o processo de recepção é o lar, onde quase sempre se vê TV e, portanto, se incia uma interação direta com a tela. A família constitui uma mediação institucional para o telespectador e, muito especialmente – mesmo que não unicamente – para o público infantil. Em primeiro lugar, a família é o grupo natural para ver TV. Nesse sentindo constitui uma primeira “comunidade” de apropriação do conteúdo televisivo”. (OROZCO, 156:2005).

RequiemForADream7Mediações Situacionais: espaço, tempo, local, só ou acompanhado. Com o vício do filho pelas drogas, Sara passa a maior parte do tempo sozinha em seu apartamento, logo sua única companheira é a televisão. O aparelho está localizado em um ponto estratégico: a sala que está interligada com a sala de jantar e a cozinha, locais em que a personagem está com maior frequencia. Mesmo que não esteja sentada na frente da TV, ela está sempre ligada.

“A companhia pode implicar a possibilidade de uma apropriação mais comentada da programação e, eventualmente, uma possibilidade de tomar maior distanciamento do que é transmitido na tela. Quando se vê a TV sem companhia, não se tem acesso imediato à “opinião do outro” sobre o que se está vendo, o que no caso…” (OROZCO, 2005:155).

RequiemForADream9Mediações Cognitivas: atenção, seleção, escala de valores, apropriação e produção de sentidos, representações que estruturam o conhecimento (guias). A solidão, a falta de motivação, expectativa e substituição de valores, em que um objeto acaba tendo a mesma importância de que um ser humano, fazem com que a televisão seja muito importante na vida de Sara e se torne um ideal de vida, já que ela não tem mais família para se preocupar.

RequiemForADream11Mediações Videotecnológicas: representação, denotação, naturalização verossímel. Os recursos utilizados pelo programa assistido por Sara são bem propícios para atrair a atenção de uma pessoa que precisa de estímulo para sobreviver. Frases de efeito como “Temos uma ganhadora!”, “Força de Vontade!”, “Vocês são um barato!” e uma platéia vibrante que repete essas frases como um coro musical são um recurso perfeito para tranformar qualquer mensagem verossímel.

“A TV como meio técnico de informação possui um alto grau de representacionalismo, produto de suas possibilidades eletrônicas para apropriação e transmissão dos seus conteúdos. Essa qualidade de representação, além de permitir uma ‘reprodução’ da realidade de maneira fidedigna, permite ao meio televisivo ‘provocar’ uma série de reações na sua audiência, algumas de caráter estritamente racional, mas outras fundamentalmente emotivas”. (OROZCO, 152:2005).

Deste modo, não podemos afirmar que a personagem Sara Goldfarb teve uma relação passiva com a programação televisiva. As mediações que envolviam o seu cotidiano levaram-na a reconfigurar a importância da televisão em sua vida. A TV ganhou um status de membro da família, uma vez que Sara era viúva e seu filho não morava em casa e era um usuário de drogas. O sonho de família perfeita acabou com a morte de seu marido. Ela não tinha mais para quem se arrumar, ou de quem cuidar, não era um bom exemplo para ninguém. Então, ao assistir um programa televisivo que tinha por objetivo levantar a estima dos telespectadores ao levarem uma vida mais saudável, ter uma família e uma vida perfeita como em um conto de fadas, a personagem fugia de sua realidade. A TV não merece toda a culpa neste processo de alienação de Sara Goldfarb, a programação estava ali, cheia de discursos ideológicos e persuasivos, mas a vida da personagem favoreceu para o seu processo de manipulação.

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Citações – OROZCO, Guillermo. La audiência frente a la pantalla, in Diálogos de la Comunicacción – no. 30. Lima. FELAFACS, 1990.