por Paola Queiroz
Com o desenvolvimento da indústria, veio a produção em grande escala e com ela o consumismo. Com o avanço das tecnologias, as novidades foram surgindo em tempo recorde, reforçando a necessidade de consumir sempre o que há de mais novo, tornando o antigo inutilizável. Ainda com as tecnologias, os meios de comunicação foram se tornando cada vez mais acessíveis à população. Hoje, a internet e o celular são as principais vias de relacionamento entre as pessoas com qualquer poder aquisitivo e em qualquer lugar do mundo. Como numa rede, as características comportamentais do homem atual estão relacionadas, sem que se consiga definir causa e conseqüência.
Assim como os produtos e os meios de comunicação, as relações entre as pessoas, em especial as amorosas, também passam pelo processo da instantaneidade e assumem o caráter descartável do consumismo, aquilo que é usado até a satisfação das necessidades ou até que se perca o interesse. Parte das características dos tempos atuais, bem definido por Zygmunt Bauman como Modernidade Líquida, o amor de hoje sofre dos mesmos sintomas do comportamento humano em vários aspectos da vida. A correria, o tempo fugaz, o apego e o desapego, a necessidade de estar em todos os lugares, de não perder oportunidades, de não poder parar, não poder pensar, o interesse e o desinteresse quase simultâneos.
A facilidade de comunicação pode possibilitar o acesso entre as pessoas, no entanto configura a fragilidade dos laços estabelecidos. Ao mesmo tempo em que faz com que as pessoas se sintam confortáveis e seguras para, através de sites de relacionamentos, falar sobre assuntos, muitas vezes íntimos, que demandariam sucessivos encontros e elevado grau de conhecimento do outro, faz também com que as relações, fragilmente estabelecidas, sejam facilmente quebradas. Neste mundo propenso a mudanças rápidas e imprevisíveis, os homens de nossa líquida sociedade moderna se conectam uns aos outros sem a garantia da permanência.
Os vínculos são frouxamente atados para que possam ser desfeitos, assim que se fizer necessário ou quando o cenário mudar, o que acontece repetidamente nos tempos atuais. Os sentidos e os sentimentos são facilmente descartáveis, mas homens e mulheres desejam a segurança do convívio e a possibilidade de contar com o apoio do outro, num momento de aflição. Então, buscam, a todo custo, “relacionar-se”. Porém, ao menor sinal de estarem “ligados permanentemente” a alguém, buscam preservar a individualidade e não aprofundar a relação, já que esta condição pode trazer encargos e tensões que nem sempre se está disposto ou pronto a enfrentar e, acima de tudo, limita a liberdade de “relacionar-se” novamente.
Como afirma Bauman, no livro Amor Líquido, o que os seres humanos esperam é “(…) desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir…”. O sociólogo refere-se a essa conduta como “relacionamento de bolso”, quando se pode usar e tornar a guardar quando convier. Ou, ainda, de maneira mais severa, compara os relacionamentos com a vitamina C: “em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. (…) É preciso diluir as relações para que se possa consumi-las.” Nestes casos, as relações devem ser sempre revistas para que se tenha certeza de que continuarão funcionando bem.
No contexto atual, os compromissos, em especial os estabelecidos a longo prazo, são encarados como limitadores para que outras possibilidades românticas surjam, talvez mais satisfatórias e completas, como um produto comercializável. Assim prefere-se manter distância, não assumir nem exigir compromisso, deixando “todas as portas sempre abertas”. Parece, portanto, que, mesmo ansiando por relacionar-se, paira o medo do fracasso, o que gera conflito entre o que se fala e o que se faz. Ao mesmo tempo há “o prazer do convívio e o horror da clausura”. Por isso, o homem contemporâneo prefere conectar-se. Ao invés de parceiros, estabelecem-se redes. Desta forma, é fácil conectar e desconectar por escolha, basta apertar um botão. Um relacionamento indesejável não parece ser tão fácil de romper como uma conexão indesejável.
Diferentemente das relações reais, em que as coisas são pesadas, lentas, complexas e sólidas, as relações virtuais são perfeitamente adequadas ao cenário da líquida vida moderna, no qual tudo é leve, se transforma, se recicla e é substituído velozmente, incluindo as possibilidades amorosas. Logo, deficiente na qualidade, procura-se suprir a falta com a quantidade. Pode-se acreditar que a habilidade de amar aumenta com o acúmulo de experiências. Estabelecer-se se torna inviável para o habitante da sociedade atual, que prefere a satisfação instantânea a postergar, semeando, alimentando e cultivando o desejo. Este não chega a crescer efetivamente para, assim, ser realizado. Essa conduta foi comparada, por Bauman, a dos consumidores que, hoje, não compram para satisfazer o desejo, mas por impulso, já que o cultivo do desejo para que este dê lucros leva um tempo insuportavelmente longo.
O desejo e o amor, aparentemente próximos, se distanciam. “Se o desejo pretende consumir, o amor quer possuir”. O desejo cessa ao realizar-se, há em si a aniquilação do objeto. O amor, no entanto, pretende assimilar o sujeito no objeto, possuí-lo. Desta forma, amor e desejo não andam, hoje, necessariamente lado a lado. Em muitos casos, opta-se por “resolver” a compulsão do desejo, a fim de findá-lo, tornando o objeto desejado eminentemente descartável. Em nosso mundo de velocidade e aceleração, não é dado o tempo necessário para que se perceba o sujeito além do objeto, para então amar e se relacionar verdadeiramente.
2 Comentários
28 . 08 . 2009 às 17:35
Paola, lindo texto, muito bem construído — e o comentário segue com um abraço a todo o grupo e desejo de sucesso a todos. Foi um prazer tê-los no curso de Mídia e Poder, da Faculdade Cásper Líbero.
28 . 08 . 2009 às 18:51
Dimas, muito obrigada!!! Fico feliz, pois é um tema que me interessa bastante.
Foi um grande prazer ter aula com você. Acredito que tenha sido para todos.
Um grande abraço.